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Histórico

"Hoje a culpa é do funk"

Comissão Arns

04/12/2019 08h20

 

Moradores de Paraisópolis saem em caminhada a partir das 17 horas de hoje, para se concentrar em ato nos portões do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Pedirão rigor na apuração sobre a Operação Pancadão da PM, investida policial que no último final de semana resultou em nove mortes e inúmeros feridos, todos adolescentes e jovens.

Pedirão, também, a presença do Estado em uma favela de 100 mil habitantes, com carências múltiplas, mas cheia de projetos sociais em andamento e potencialidades criativas. Acima de tudo, cobrarão uma presença que não seja a repressora. Em depoimento à jornalista Laura Greenhalgh, integrante da Comissão Arns, Gilson Rodrigues, o mais conhecido líder local, fundador do Instituto Escola do Povo e presidente da União de Moradores de Paraisópolis, explica a situação de perplexidade e indignação da comunidade após a atuação da PM:

Agradeço o interesse da Comissão Arns em ouvir o que nós, moradores de Paraisópolis, achamos dessa operação policial, claramente uma emboscada para reprimir a juventude. O que se passou no último fim-de-sema foi uma situação anunciada. O Baile da 17 existe há sete anos, foi crescendo, crescendo, mas eu diria que sempre houve uma hostilidade da PM em relação a esse tipo de manifestação cultural. E não só aqui. Existe em outras partes onde o funk está presente. Só que essa animosidade em Paraisópolis piorou muito nos últimos tempos, tanto que estávamos temendo um confronto mais forte, a qualquer momento.

Aqui, o baile acontece semanalmente, dura em geral dois dias inteiros, e pode reunir mais de 30 mil pessoas. Os carros de som vão chegando, estacionam e começam a animar a multidão. O baile vai continuar acontecendo, mesmo com a repressão e as mortes dos últimos dias. Esta festa em Paraisópolis integra a agenda do funk nacional – talvez seja o baile no gênero mais importante atualmente. 80% dos frequentadores são pessoas de fora da nossa comunidade. Vem gente de muitos lugares, inclusive dos bairros ricos e chiques de São Paulo. Vêm também artistas e famosos, daí os jovens fazem o quê? Tiram fotos com eles, fazem selfies, esse é o programa da garotada.

Se tem barulho forte e reclamação? Tem, sempre teve. Especialmente dos moradores da região central, onde o baile acontece. Temos tentado melhorar essa situação. Há tempos nós, da União dos Moradores de Paraisópolis, temos chamado a atenção do governo e da prefeitura para o tamanho desta festa. Temos pedido apoio para garantir uma infraestrutura mínima aos frequentadores: banheiros químicos, por exemplo. Espaços de acolhimento. Medidas de segurança em defesa da população, e não contra ela. A gente nota que uma boa parte dos jovens que vêm para o Baile da 17 não tem outras opções de lazer, vem aqui para se divertir.

Dizer que o baile está nas mãos do PCC é besteira, até porque, se for assim, a gente poderia dizer que a cidade inteira está nas mãos do PCC. O que eu posso afirmar é que o crescimento do Baile da 17 foi acontecendo de forma espontânea. É uma coisa que tem a ver diretamente com o funk, um fenômeno jovem e nacional. 

Este é o momento de acompanhar os enterros das vítimas, de ver como estão os feridos, de consolar as famílias, enfim, é um momento de dor muito grande para Paraisópolis. Mas, sabemos que o desejo de reprimir da PM é coisa antiga. Aconteceu agora e pode acontecer de novo. O meu sentimento é o de que houve uma coisa organizada. Não tem fundamento essa história de motoqueiro que saiu atirando em policial, essa versão já está caindo por terra. O que houve foi uma emboscada policial que fechou as saídas das duas ruas principais no local da festa, para impedir a passagem das pessoas mesmo. Entre tiros, pancadaria e pânico geral, os jovens entraram nas vielas sem saída, tentando se proteger ou escapar. Como a grande maioria é gente que não vive aqui e não conhece a geografia de Paraisópolis, foram facilmente encurralados, agredidos e, naquele caos, pisotearam e foram pisoteados.  

Mais uma vez, vamos cobrar a presença do Estado em Paraisópolis, uma comunidade com muitos projetos sociais, com escolas, balé, orquestra…mas a minha impressão é a de que iremos viver de crise em crise. Há oito anos venho pedindo aos prefeitos de São Paulo que  liberem recursos para infraestrutura de lazer e segurança do Parque de Paraisópolis. É uma área importante, que pode oferecer muita atividade e entretenimento para a juventude. Entra prefeito, sai prefeito, e nada acontece. O parque continua fechado. De quem é a responsabilidade? Hoje, a culpa é do funk.

 

 

Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.