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Coragem! Uma lição de D. Paulo Evaristo Arns

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16/09/2019 09h45

 

Por Margarida Genevois

Falar de D. Paulo Evaristo Arns não é fácil. Por mais que se diga, sempre faltará muito mais a dizer. Considero-me uma pessoa de sorte, pois tive o privilégio de trabalhar durante 25 anos com ele. A grande maioria desse tempo foram os anos de chumbo, de sofrimento, de sangue e de dor, mas também anos de aprendizagens e realizações.

Trabalhar com D. Paulo era um crescimento, tornava as pessoas melhores. Sempre sério, trabalhava sem alarde, discretamente, corria riscos como se fosse a coisa mais natural – pois tinha que ser feito.

Para surpresa geral, quando se tornou arcebispo de São Paulo vendeu o Palácio Episcopal Pio XII para construir casas populares na periferia da cidade. E foi morar numa casa modesta no bairro do Sumaré. Sempre sensível ao drama dos moradores de rua, destinou o Prêmio Niwano da Paz, recebido em 1991 em Tóquio, para a construção de uma igreja e de um abrigo para quem morava nas ruas.

Com o endurecimento da ditadura militar, as famílias dos presos e dos desaparecidos buscavam D. Paulo como a última esperança para ter notícias e apoio. Vinham pessoas do Brasil inteiro e também de países vizinhos. Ele recebia a todos com atenção e carinho. E encaminhava essas famílias aos seus assessores da Comissão Justiça e Paz (CJP).

Dom Paulo era para nós um mestre, um pai, um amigo, um guia. Aquele que nos mostrava o caminho. A Comissão Justiça e Paz foi criada em São Paulo por insistência dele junto ao Papa, pois CJP só podia existir, na época, nas capitais dos países.

Dom Paulo reuniu o grupo de pessoas que formaram a primeira CJP na sua casinha do bairro de Sumaré, onde as reuniões eram na cozinha, pois a sala dava para a rua e ficava muito vulnerável. Eu era a única mulher, entre advogados e jornalistas de renome.

Os advogados informavam que diariamente eram procurados por familiares e pessoas que haviam sido presas, torturadas, machucadas, desaparecidas. Pessoas que não tinham a quem procurar para ter notícias, para salvar seus parentes. A Igreja era a última esperança para elas.

O atendimento da CJP na Cúria Metropolitana começou sendo feito uma vez por semana. Depois, passou a ser duas, três vezes, e em seguida diariamente, manhã e tarde, tão grande era o número de pessoas que procuravam D. Paulo e que ele encaminhava para nós.

Cheguei a assumir a presidência da CJP com certa insegurança, mas sabia que poderia contar com o apoio de D. Paulo. Serei sempre grata pela confiança que em mim depositava, e que retribuí com dedicação e afeto.

Durante todos os anos da ditadura, para ter notícias de presos e desaparecidos e protestar contra as barbaridades que eram praticadas diariamente, D. Paulo procurava autoridades – chefes militares ou políticos em Brasília – sem temer pela sua segurança.

Suas ações eram as mais variadas. Além da CJP e das moradias construídas com o dinheiro do prêmio que recebeu, ele acompanhava os grupos ligados à Cúria que atuavam nas periferias da metrópole, o Amparo Maternal, que reunia mães solteiras, o trabalho de Padre Júlio com os moradores de rua, e muito mais.

Passaríamos várias horas contando suas iniciativas em defesa da dignidade da pessoa humana.

E como ele nos faz falta, hoje em dia!

Estamos todos, aqui, para relembrar D. Paulo e como ele foi importante para o Brasil, para cada um de nós.

Mas estamos aqui, também, para reaquecer nossa Esperança num futuro melhor.

Dom Paulo nos ensinou uma lição: nunca deixar de ter esperança. Por mais difícil que sejam os tempos atuais (quando não sabemos como atuar para garantir que a democracia continue) precisamos acreditar que outros tempos virão.

Devemos incentivar a união daqueles que querem ver o Brasil em paz, um país onde as pessoas possam acreditar que o progresso é feito 'pelo-e-para' o conjunto de brasileiros.

Um país em que os governantes se empenhem em dirigir a nação buscando, como prioridade, conhecer e tratar das carências dos mais pobres.

Um país onde nós possamos pôr em prática os ensinamentos de D. Paulo, ouvindo os cidadãos, atuando com eles e divulgando suas ações para o conjunto de brasileiros.

Quando nos despedíamos dele, D. Paulo dava um tapinha nas costas e dizia: CORAGEM. E com esta palavra parece que uma corrente de forças positivas passava para nós, nos tornava mais fortes.

Era o seu jeito de nos manter animados e cheios de esperança. Que seu lema continue nos dando forças para cumprir nosso papel.

 

Margarida Genevois, Presidente de Honra da Comissão Arns, é socióloga e foi presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.