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As “sardinhas” derrotam a extrema direita

Comissão Arns

11/02/2020 09h23

Paulo Sérgio Pinheiro

No final de janeiro, a extrema direita na Itália, contra todas as previsões, foi fragorosamente derrotada nas eleições regionais na Emília Romana. As esquerdas ficaram com 51,4% dos votos, contra 43,7% da direita. O candidato à presidência da região vencedor, Stefano Bonaccini, tratou em sua campanha de problemas concretos e locais, em vez de bater de frente contra os carros-chefes da extrema direita, como a anti-imigração e o racismo. O grande perdedor foi Matteo Salvini, líder da Liga do Norte, expoente da vertente nacionalista, populista, xenófoba e anti-imigrantes na Itália.

Uma das razões do fracasso do candidato a duce – que em agosto de 2019 tentou dar um golpe parlamentar para obter os plenos poderes – foi o movimento delle sardine, o movimento das "sardinhas". A referência às sardinhas vem da expressão stretti come sardine, em português, "como sardinhas em lata", e se refere à necessidade de lotar as praças públicas. A proposta, que partiu de quatros jovens em Bolonha, justamente a capital da Emília Romana, visava a mobilização da sociedade pelo Facebook em torno dos valores do antifascismo.

Em contraste com a pregação boçal e ofensiva da extrema direita, as "sardinhas" usam uma linguagem pacífica, pregando a tolerância e contra a violência verbal. Os participantes do movimento ignoram as provocações da extrema direita, em vez de responder. Em novembro de 2019, conseguiram reunir em praça pública, na Bolonha, mais de 15 mil pessoas. Depois a experiência foi replicada em cidades como Modena, Milão, Florença, Turim, Nápolis, Palermo, com multidões cada vez mais numerosas, chegando a reunir cem mil pessoas em Roma, no dia 14 de dezembro.

A novidade é que o movimento das sardinhas é apolítico e não alinhado a qualquer partido. Bandeiras e faixas de partidos são banidas nas manifestações para favorecer um espírito de inclusão e enfatizar a dimensão cívica dos protestos. As "sardinhas" estão tendo sucesso onde a esquerda progressista falhou, incapaz de achar vocabulário e ideias para desafiar a retórica divisiva e violenta de lideranças da extrema direita.

Hoje, as "sardinhas" já têm uma estrutura de comunicação sólida, com uma dezena de porta vozes nacionais e membros articulando a mídia. Depois das eleições de 2020, em março, projetam criar uma estrutura organizativa, por meio de amplas conferências, para discutir seu futuro. Desde já deixam claro que continuarão a não indicar candidatos ou apoiar partidos, nem vão se transformar em partido político.

No Brasil, ataques da extrema direita acontecem, às escancaras, para desmontar a democracia constitucional de 1988. Diante dessa realidade, as organizações de direitos humanos estão profundamente divididas em temáticas específicas. As forças políticas democráticas e progressistas, baratinadas, não se articulam.

Para sairmos do torpor atual, a experiência inclusiva das "sardinhas" pode inspirar a mobilização em torno de um programa comum mínimo, apartidário, em defesa da tolerância e da democracia.

E.T. – Agradeço ao ex-senador da Itália, José Luiz del Roio, sua análise da conjuntura daquele país. As posições aqui expressas são minhas.

 

Paulo Sérgio Pinheiro é integrante da Comissão Arns, cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos.

 

Foto: Piauí-UOL – Lucas Ferraz

 

 

 

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.