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Histórico

A desinformação testa positivo

Comissão Arns

09/07/2020 09h59

 

Por Laura Greenhalgh

Ao fatos: em março, Jair Bolsonaro e comitiva brasileira se encontram com o presidente Donald Trump, o vice-presidente Mike Pence, autoridades e convidados, num resort de luxo na Flórida. Voltam ao Brasil em avião oficial, com mais de duas dezenas de infectados pelo coronavírus a bordo. A Fox News divulga que o filho 03 do presidente teria dito que seu pai testara positivo. Eduardo Bolsonaro nega. Nas semanas seguintes, abre-se longa batalha midiática e jurídica sobre o acesso a uma informação que é devida à sociedade: o presidente contaminara-se ou não? Por fim, Bolsonaro libera exames médicos sob nomes falsos e comunica à nação que testou negativo.

Nesta terça (7/7), no mesmo dia em que seu filho 01, o senador Flávio Bolsonaro, prestou depoimento ao MP do Rio na investigação da "rachadinha", o presidente arma um circo midiático com a divulgação de outro teste para Covid-19, agora feito sob nome verdadeiro, com resultado positivo. Em entrevista a poucos veículos, depois reverberada por toda a imprensa, fala de sua recuperação e, como de praxe, distribui desinformações: além de comparar a pandemia a uma chuva, afirma que a maior parte das pessoas nem percebe que está com o vírus. Erra feio: a taxa dos assintomáticos no Brasil é de menos de 10%, portanto, a grande maioria dos que contraem a doença sabe muito bem do que se trata. Fora isso, assintomáticos são transmissores.

Na operação de mídia em torno do teste desta terça, Bolsonaro toma hidroxicloroquina numa live, desafiando estudos científicos e a não-recomendação da OMS ao medicamento. De novo, imita Trump: o presidente norte-americano, também diante de câmeras, já admitiu fazer uso da cloroquina de forma preventiva, o que não faz o menor sentido. Empossado como garoto-propaganda de medicamento, Bolsonaro deve ter combinado a live com setores militares, uma vez que a cloroquina 150 mg, registrada pelo Exército junto à Anvisa, está sendo fabricada pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército (LQFex).

Não é de hoje que o presidente prescreve aos brasileiros doses robustas de desinformação, inclusive sobre sua saúde. Os efeitos são mais do que evidentes: a falta de liderança como governante, negacionismo e exibicionismo explícitos e a pretensão de que pode manipular a opinião pública para o lado que lhe convier afundam o Brasil numa crise sanitária, com jeitão de humanitária. Estudo epidemiológico da Universidade Federal de Pelotas, encomendado por Luiz Henrique Mandetta quando à frente do Ministério da Saúde, permite afirmar que o número de contaminados no Brasil é pelo menos seis vezes maior do que o divulgado. Quanto à escalada de mortos pelo coronavírus, segundo o Institute of Health Metrics and Evaluation, dos Estados Unidos, poderemos ter mais de 166 mil no início de outubro próximo.

Parece evidente que não é hora de o presidente posar como garoto-propaganda de qualquer remédio, seja qual for o seu interesse nisso. Por outro lado, é urgente coordenar esforços para superar uma pandemia duríssima, que afeta desigualmente um país já tão desigual. Sejamos realistas: se exercer uma liderança verdadeira, legítima, democrática, em âmbito nacional, for algo muito acima das capacidades de Bolsonaro, que ele possa ao menos suspender a carga de desinformação que joga sobre os brasileiros a cada dia, produzindo enganos, estimulando comportamentos pouco ou nada solidários, colocando vidas em risco. Só que, para isso, será preciso compreender a dimensão do próprio cargo. Eis a questão.

 

Laura Greenhalgh, jornalista, é integrante da Comissão Arns

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.