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Comissão Arns

O papa anticomunista e o cardeal antiditadura

Comissão Arns

26/10/2020 09h34

Laura Greenhalgh

Em 8 de fevereiro de 2005, rumores da morte de João Paulo II se intensificaram, acendendo o alerta geral. O papa polonês vinha, há oito anos, em acentuado processo de degradação física. Dizia-se de tudo: que ele tinha apenas lapsos de consciência, que respirava por aparelhos e até que já havia morrido. À nossa memória voltava a imagem do pontífice cambaleante, cabeça pendida sobre o corpo frágil, enfrentando eventos públicos apesar de carregar tantas enfermidades.

Nesse dia em que jornalistas se perguntavam se era hora de fazer as malas e seguir para Roma – de fato, o papa ainda viveria mais dois meses – convidei D. Paulo Evaristo Arns, cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, para uma entrevista sobre o momento que o mundo católico atravessava, publicada no caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Ouvira, de fonte segura, que D. Paulo era favorável a algo impronunciável nos círculos da Igreja: a renúncia papal. A última vez que tal ruptura havia se dado foi com Celestino V, no século 13. Desse momento em diante, papas morriam papas. Ou seja, no cargo.

Encontrei D. Paulo à tarde, no dia da semana que ele reservava para receber de moradores de rua a figurões da República, no pátio da igrejinha de São Francisco, ao lado da tradicional Faculdade de Direito da USP, no centro de São Paulo. Terminada a agenda do dia, falamos longa e animadamente. Uma conversa profética, da parte de D. Paulo, já aposentado. Sim, papas deveriam renunciar, se e quando preciso, e isso se confirmaria anos depois, por ninguém menos que Bento XVI, um notório conservador.

D. Paulo estava com 83 anos, um a menos que João Paulo II, e há sete fora do comando da arquidiocese de São Paulo. Mantinha-se firme, dinâmico, memória impressionante. Recordou várias passagens suas com João Paulo, num convívio de décadas. Confirmou que o pontífice nunca aprovara o seu enfrentamento com a ditadura militar no Brasil, em defesa dos perseguidos políticos, torturados e mortos pelo regime. Mas também nunca chegou a censurá-lo por acolher livros e defensores da Teologia da Libertação.

A cada visita cardinalícia de D. Paulo ao chefe em Roma, João Paulo o recepcionava com três perguntas, sempre feitas em alemão: "Paulo, você tem cuidado dos pobres? Tem cuidado dos trabalhadores? Tem cuidado dos jovens?".  Preocupações válidas em se tratando de um cardeal que estava à frente de uma arquidiocese com milhões de pessoas. D. Paulo ainda mencionou uma carta de João Paulo II, lida em um encontro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), onde afirmava que a Teologia de Libertação "não foi só oportuna, mas necessária à evolução teológica da Igreja".

Nessa entrevista, D. Paulo discorreu sobre os papas com quem conviveu: Paulo VI, por quem nutriu apreço especial; João Paulo I, cujo papado durou 33 dias; e, claro, João Paulo II, no trono de Pedro por 23 anos. Sobre o papa Bento XVI, não há comentário, já que a entrevista precede a eleição do cardeal Ratzinger. Este renunciaria em 2013. Tornou-se papa emérito e abriu uma nova era na Igreja católica.

Um trecho da entrevista marcou a jornalista. Palavras de D. Paulo: "Na última visita oficial que fiz a João Paulo II, quando deixei a arquidiocese de São Paulo, eu me levantava para me despedir quando ele disse: 'Espera, Paulo, tenho uma carta para você. Fizeram o texto e eu só preciso assinar'. Então, propus ao papa que lêssemos juntos a carta enviada pela Cúria Romana. Era um memorando de três páginas, com vários tópicos, escrito em português, totalmente contrário a mim. Comecei a ler, traduzindo para o alemão palavra por palavra. Na altura do terceiro parágrafo, o papa se indignou: 'Eu não assino! Nunca falei isso de você, Paulo, nem quero afirmar isso!'. E jogou o papel no chão. Eu o apanhei. Daí, João Paulo II determinou que eu mesmo escrevesse duas linhas, dizendo que ele considerava respondidas — satisfatoriamente por mim — as questões apresentadas no documento, sem nada a declarar. E assinou".

O documento preparado pela cúpula do Vaticano ainda tratava intrigar o arcebispo de São Paulo, no momento de sua partida do posto: dizia que ele não fizera uma casa para os padres velhinhos, que não se ocupou com a formação dos jovens e outras inverdades forjadas. O problema é que D. Paulo sempre contou o que se passava em São Paulo a João Paulo II, "sempre fui sincero com ele". De fato, as divergências entre ambos, e eram várias, jamais sobrepujaram o respeito mútuo.

Reviver este testemunho do patrono da Comissão Arns, tal como outros episódios de sua vida, ajuda-nos a encarar os tempos atuais. Tempos em que os divergentes deveriam parar de tentar se aniquilar o tempo todo, num exercício não só pouco produtivo, como perigosamente insano.

 

Laura Greenhalgh, jornalista, é integrante da Comissão Arns

 

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.