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A extrema direita cristã no Brasil

Comissão Arns

30/10/2020 12h00

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Paulo Sérgio Pinheiro

As igrejas católica, com o Papa Francisco, e protestantes tradicionais, permanecem centradas na mensagem do Evangelho de compromisso com os pobres e oprimidos. Em contrapartida, muitas igrejas evangélicas perverteram essa mensagem criando um mundo mágico, onde Deus e Jesus cobrem os crentes de riqueza material e poder. O capitalismo – porque Deus abençoou os justos com riqueza e poder, e condenou os imorais à pobreza e ao sofrimento – foi despojado de sua crueldade e exploração inerentes, como destaca o jornalista Chris Hedges, no artigo The Politics of Cultural Despair, para o portal Scheerpost, no qual me inspirei para este texto.

Se você é pobre, se não tem atendimento médico adequado, se recebe salários miseráveis, se é vítima de violência policial, é porque, segundo o Evangelho da Prosperidade, você não é um bom cristão. Nesse sistema de crenças, você merece o que recebe. "Não há nada de errado", prega essa extrema direita cristã, com as estruturas ou sistemas de poder oligárquico.

Os mega pastores narcisistas, verdadeiros governadores de feudos despóticos semelhantes a cultos, ganham milhões de reais e se recusam a pagar dívidas tributárias de suas igrejas, no valor de quase 1 bilhão de reais, agora perdoadas pelo Congresso Nacional – pasmem!, com apoio das oposições. Esses campeões da ganância irrestrita e seus crentes encontraram, em Bolsonaro, o ungido de Deus para construir a nação cristã e edificar um governo com "valores terrivelmente evangélicos".

Esses "valores bíblicos", como aponta Hedges, incluem culto à masculinidade, fanatismo, intolerância religiosa, homofobia, racismo, anti-feminismo, oposição à ciência, anti- intelectualismo, castigo físico das crianças, anti-indigenismo, sem esquecer a defesa incondicional do apartheid contra os palestinos em Israel, em nome de uma futura segunda vinda do Messias. Dezenas de milhões de crentes no mundo, diz Hedges, "vivem hermeticamente fechados dentro de vastas redes de televisão e rádio erguidas pela  direita cristã". Aqui, milhares de fiéis brasileiros são espectadores de cultos transmitidos por empresas de propriedade da extrema direita – que utilizam concessões de canais de telecomunicações demagogicamente doadas por sucessivos governos federais, na expectativa ilusória de obter apoio.

Faz décadas, essa extrema direita cristã se organiza para assumir o poder. Construíram infraestruturas e organizações, incluindo grupos de lobby, escolas, plataformas de mídia. Eles semearam seus quadros em posições de poder, como a bancada evangélica de quase cem parlamentares no Congresso Nacional e centenas nas Assembleias Legislativas dos estados da federação e nas Câmaras de Vereadores. As instituições democráticas e os conselhos onde tem assento a sociedade civil vêm sendo destruídas ou esvaziadas pelo governo de extrema direita, com aval da junta militar informal, composta por dez ministros e um vice militares, sem o dissabor de terem de contar com uma frente ampla de partidos de oposição.

A extrema direita cristã está determinada a manter o foco público nas questões culturais, em oposição às questões econômicas e sociais. As elites empresariais brancas se lixam para as bandeiras ideológicas do governo de extrema direita. Valem-se de entornar um verniz ideológico sobre a cruel tirania da concentração de renda, da desigualdade racial e econômica. 1% da população mais rica detém 28% de toda a riqueza obtida no país. Lemann (AB Inbev), Safra (Banco Safra), Herrmann Telles (AB Inbev), Sicupira (AB Inbev), Saverin (Facebook) e Ermírio de Moraes (Grupo Votorantim), os seis mais ricos do Brasil, concentram juntos, segundo a organização Oxfam, a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres do país, ou seja, metade da população brasileira (207,7 milhões).

Não vamos aplacar ou desarmar essa extrema direita, afirmando que na oposição também temos "valores" cristãos. Esse apelo apenas fortalece a legitimidade da extrema direita cristã e enfraquece a nossa. Os brasileiros e as brasileiras que de boa fé atendem ao chamado das igrejas dos mega pastores e do "mito" somente terão condições de se descolar da extrema direita se virem possibilidades efetivas de serem integrados à economia, de terem seus laços sociais reparados, e debeladas a desigualdade, a concentração de renda, a violência ilegal do Estado e o apartheid da maioria negra brasileira. Caso isso não ocorra, completado pela desunião da oposição, o movimento de extrema direita se tornará, sob a liderança de Bolsonaro, cada vez mais virulento e poderoso.

 

Paulo Sérgio Pinheiro é relator especial da ONU e presidente da Comissão Independente Internacional de investigação sobre a República Árabe da Síria desde 2011. Ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos e coordenador da Comissão Nacional da Verdade, foi o primeiro presidente da Comissão Arns, da qual é integrante.

 

 

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL. Ele expressa opiniões do seu autor e também não necessariamente reflete um consenso da Comissão Arns.

Membros da comissão

Ailton Krenak (líder indígena e ambientalista), André Singer (cientista político e jornalista), Antônio Cláudio Mariz de Oliveira (advogado, ex-presidente da OAB-SP), Belisário dos Santos Jr. (advogado, membro da Comissão Internacional de Juristas), Cláudia Costin (professora universitária, ex-ministra da Administração), Dalmo de Abreu Dallari (advogado, professor emérito e ex-diretor da Faculdade de Direito da USP), Fábio Konder Comparato (advogado, doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra, professor emérito da Faculdade de Direito da USP), José Carlos Dias (presidente da Comissão Arns, advogado, ex-ministro da Justiça), José Gregori (advogado, ex-ministro da Justiça), José Vicente (reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares), Laura Greenhalgh (jornalista), Luiz Carlos Bresser-Pereira (economista, ex-ministro da Fazenda, da Administração e da Reforma do Estado), Luiz Felipe de Alencastro (historiador, professor da Escola de Economia da FGV/SP e professor emérito da Sorbonne Université), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga, professora titular aposentada da USP e da Universidade de Chicago), Margarida Bulhões Pedreira Genevois (presidente de honra da Comissão Arns, ex-presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo), Maria Hermínia Tavares de Almeida (cientista política, professora titular da Universidade de São Paulo), Maria Victoria Benevides (socióloga e cientista política, professora titular da Faculdade de Educação da USP), Oscar Vilhena Vieira (jurista, professor da Faculdade de Direito da FGV/SP), Paulo Vannuchi (jornalista, cientista político, ex-ministro de Direitos Humanos), Paulo Sérgio Pinheiro (cientista político, ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos), Sueli Carneiro (filósofa, feminista, ativista antirracista e diretora do Gelidés), Vladimir Safatle (filósofo, professor do Departamento de Filosofia da USP)

História da comissão

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos ¨Dom Paulo Evaristo Arns¨ foi instalada em 20 de fevereiro de 2019, em ato público na Faculdade de Direito da USP, no largo de São Francisco (SP). Ela reúne, como membros-fundadores, 20 personalidades do mundo político, juristas, acadêmicos, intelectuais, jornalistas e militantes sociais de distintas gerações, cujo denominador comum tem sido a permanente defesa dos direitos humanos em suas áreas de atuação. O grupo se organizou de forma espontânea, voluntária e suprapartidária, para dar visibilidade a graves violações da integridade física, liberdade e dignidade humana em nosso país. Tem como prioridade os indivíduos e as populações discriminadas - mulheres, negros, indígenas, quilombolas, pessoas LGBTQs, jovens, moradores de comunidades urbanas e rurais em situação de extrema pobreza. A Comissão Arns age sentido de impedir retrocessos em marcos legais e direitos sociais conquistados pelo povo brasileiro.